CALCULO DE INTERVALO POSMORTEN (IPM)

 

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A estimativa de IPM pelo método entomológico visa estabelecer o tempo, mínimo e máximo, entre a morte e o encontro do corpo. O limite máximo de tempo é estabelecido pela coleta dos espécimes e a análise do seu padrão de sucessão nos corpos, desde que sejam correlacionados às condições ambientais do local de exposição e todos os fatores que podem atrasar a chegada dos insetos e a colonização. O limite mínimo de tempo é estabelecido, por exemplo, pela idade dos espécimes coletados nos cadáveres, portanto o espécime mais velho corresponde ao menor intervalo entre a colonização e a descoberta do corpo.     

 

ESTIMATIVA DO LIMITE DE TEMPO MÁXIMO DE IPM

A estimativa de limite de tempo máximo de IPM é aplicada a cadáveres em adiantado estado de decomposição, baseada na composição da comunidade de artrópodes relacionados ao padrão de sucessão esperado (GOFF & FLYN, 1991). Estudos do processo de decomposição cadavérica, relacionados ao padrão com que as espécies entomológicas se sucedem nos corpos, têm sido conduzidos por todo o mundo, desde o célebre trabalho de MÉGNIN, 1894. Contudo, esses padrões de sucessão não podem ser aplicados em estudos de IPM no Brasil visto que, o nosso clima, além de favorecer o surgimento de espécies tropicais, diferentes daquelas típicas de ambiente temperado onde a maior parte dos estudos é conduzida,  acelera o processo de decomposição cadavérica.

O estudo de decomposição de MÉGNIN (op. cit.) durou cerca de três anos, enquanto que no Brasil, dependendo das condições, um cadáver exposto pode alcançar a fase de esqueletização em menos de 10% desse tempo. Recentemente, alguns estudos têm sido conduzidos no Rio de Janeiro e São Paulo para estabelecer um banco de dados (SALVIANO et. al., 1996; OLIVEIRA-COSTA, 2000; CARVALHO et. al., 2000; OLIVEIRA-COSTA et. al., 2001).

Um formato comum à maioria dos estudos de sucessão de artrópodes no processo de decomposição em carcaças animais ou humanas foi a tentativa de subdividir todo o processo de decomposição dentro de estágios integrados, cada um com características  e reunião de artrópodes próprias. Desta forma, o processo de composição é dividido em fases de acordo com as características físicas, químicas e morfológicas da carcaça e, a cada fase, é associado um grupo diferente de insetos.

  SCHOENLY & REID (1987) quantificaram como estatisticamente incerta a sucessão baseada nas fases de decomposição, visto que, até então não havia sido feita nenhuma análise estatística que comprovasse que as fases de decomposição apresentam diferenças significativas quanto à fauna encontrada. Em 11 trabalhos de análise do padrão de sucessão foi testada se a similaridade entre dias consecutivos, dentro de um mesmo estágio, foi maior que a registrada entre estágios diferentes. Destes, apenas 5 estudos revelaram agrupamentos reconhecíveis representando discreta correlação, contudo nenhum destes suportou completamente o ponto de vista baseado na sucessão por estágios de decomposição. Assim, esses autores afirmaram que a divisão em estágios pode ter valor descritivo em estudos de decomposição, mas Peritos Criminais e Médicos Legistas, bem como entomólogos e antropólogos forense devem ser alertados pela inadequação de seu uso para  investigações do padrão de sucessão.

Baseado na conclusão desses autores, eu desenvolvi um método de levantamento do padrão de sucessão denominado “método das unidades de tempo (U.T.s)”. Neste método,  que não leva em consideração as fases da decomposição, o intervalo de tempo é dividido em unidades de amostras de tempo-específico (U.T.s) correspondentes a estimativa de IPM realizada através dos métodos usuais de cronologia, especialmente, o relatório policial de investigação. O método é descrito em detalhes no meu livro (OLIVEIRA-COSTA, 2003) 

 

ESTIMATIVA DO LIMITE DE TEMPO MÍNIMO DE IPM

A estimativa de limite de tempo mínimo de IPM é aplicada a cadáveres em estado inicial de decomposição. Este método é feito pela interpolação dos dados da evolução do desenvolvimento de espécies criadas em temperatura conhecida com o mais velho estágio larvar coletado no cadáver e as condições ambientais que eles estariam supostamente expostos. As larvas mostram o mínimo de tempo em que o corpo foi exposto, em condições apropriadas, para atividade de insetos, já que, raramente, insetos necrófagos ovipõem em uma pessoa viva (TANTAWI & GREENBERG, 1993).

Os insetos imaturos encontrados, no local de morte violenta, devem ser cuidadosamente coletados e criados em laboratório até a emergência dos adultos para que a identificação das espécies possa ser feita com maior segurança. Os fatores climáticos que podem influenciar no desenvolvimento dos insetos devem ser mensurados e registrados. A temperatura, além de influenciar o processo de putrefação dos corpos, interfere diretamente com a atividade dos insetos e sua velocidade de desenvolvimento. Isto é explicado pelo fato de que os insetos são animais de sangue frio necessitando de fontes de calor externas, só sendo ativos em uma certa extensão de temperatura que ocorre dentro dos limites do limiar superior e inferior, requerendo uma soma de calor acumulado para completar o seu desenvolvimento (EDWARDS et. al., 1987).

É possível calcular o  IPM através do comprimento total da larva, porém deve ser considerado o encurtamento sofrido pelo imaturo ao se aproximar a pupação, que se não for considerado pode induzir a erro. Outros fatores que influenciam o comprimento são as condições em que essas larvas foram criadas (condições climáticas, recursos alimentares, competição, etc). Por esta razão, um método melhor é aquele que utiliza conceitos de desenvolvimento expressos em unidades que se denominam graus-dia. Estes conceitos revelam qual o valor térmico requerido pelo inseto para completar seu desenvolvimento, a medida desse calor acumulado é conhecida como tempo fisiológico. Os insetos, como foi citado acima, possuem uma temperatura ótima de desenvolvimento (entre os limiares). O GHA/GDA não é mais do que a temperatura acumulada entre esses dois pontos de parada, isto é, a temperatura adequada para seu desenvolvimento em uma base horária. Acredita-se que o GHA/GDA requerido para alcançar um outro estágio do ciclo de vida seja, geralmente, constante para a maioria dos dípteros,  sem levar em consideração que este tenha sido obtido em temperatura constante ou variável.